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Brasil está pronto para dispensar uso de máscaras?

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A pandemia da Covid-19 trouxe ao cotidiano diversos hábitos imprescindíveis de prevenção. Higienizar frequentemente as mãos, manter o distanciamento social, evitar aglomerações e usar máscaras são medidas fundamentais. O uso do acessório de proteção facial foi adotado pela segurança que ele oferece às vias aéreas, principal meio de contaminação. A transmissão acontece, principalmente, pelo contato com pequenas gotículas expelidas por pessoas infectadas. Em abril de 2020, quase todos os municípios do Brasil já adotavam a medida como obrigatória, tanto em ambientes fechados quanto abertos. 

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Com o avanço das imunizações, e a consequente redução nas taxas de contágio, diversos países vêm suspendendo a obrigatoriedade do uso do acessório de proteção. No Brasil, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) expressou o desejo de desobrigar máscaras para aqueles que já estejam vacinados contra a Covid ou que já tenham contraído a doença. Na última segunda-feira (5) Queiroga afirmou  que o pedido do presidente ainda está sendo estudado, que “não há pressa, e isso tem que ser feito com base na ciência”. 

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Mas, com mais de 530 mil mortes pela doença, mais de mil diárias, e com menos de 15% da população totalmente imunizada, especialistas mostram-se relutantes à ideia. “Quando a maior parte da população, algo em torno de 70%, estiver imunizada, quer seja pela vacina, quer seja por meios naturais, a gente diminui muito o que chamamos de ‘taxa de ataque’, que é a capacidade de um indivíduo infectado transmitir para o outro. Uma vez que todos estiverem imunizados, a gente quebra esse ciclo de transmissão”, explica Daniel Duailibi, infectologista da Clínica Amato Neto em São Paulo. 

Para ele, suavizar a obrigatoriedade é um risco alto, levando em consideração a realidade do país e o surgimento de novas variantes. “No momento em que nós estamos, principalmente pensando no Brasil como um país continental, seria muito arriscado partir para a desobrigatoriedade do uso de máscaras. Seria um grande risco para toda a população, pois poderíamos disseminar variantes e poderíamos estar diante também de quadros de reinfecção.”

Reinfecção e transmissão por vacinados

Estudo do Centro Brasil-Reino Unido para Descoberta de Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (CADDE) mostrou que, durante a segunda onda de covid-19 em Manaus (AM), cerca de 30% dos casos se tratavam de reinfecção. A máscara, portanto, ainda é uma ferramenta necessária de prevenção, mesmo para aqueles que já estão completamente imunizados, pois a quantidade de vacinados ainda não atende a de imunes necessários.

“Pessoas vacinadas ainda podem ser infectadas e participar da cadeia de transmissão da covid-19. Elas podem transmitir o coronavírus para outras pessoas, pois muitas vezes podem estar assintomáticas ou com sintomas brandos e não percebem que estão portando o vírus”, pontua Hemerson Luz, infectologista do Hospital das Forças Armadas (HFA), em Brasília.

Luz esclarece que, para decidir o momento ideal para o relaxamento da máscara, é necessário um rigoroso acompanhamento e boa estabilização da taxa de infecção: “Sabemos que esses números não são imediatos, eles correspondem a uma leitura de pelo menos 14 dias atrás, então o movimento e a observação desses números deve seguir por algum tempo para que possamos decidir qual é a melhor hora para fazer a retirada das máscaras”.

Segundo o médico, a vacinação, o uso da máscara, o distanciamento social e a constante higienização das mãos são pilares fundamentais para o enfrentamento da pandemia. “No momento, devem ser mantidos esses pilares todos para o enfrentamento. A vacina vai aumentando de importância quando tem uma abrangência maior da população vacinada. Por isso, chegará o momento em que o uso das máscaras poderão ser relaxadas, permanecendo somente em locais fechados e em unidades hospitalares”, afirma.

Riscos das variantes

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a variante Delta, inicialmente detectada na Índia, já foi identificada em pelo menos outros 97 países e é cerca de 55% mais transmissível que a Alfa – cepa 50% mais contagiosa que o vírus original, detectada no Reino Unido, e atualmente presente em pelo menos 172 países. Segundo o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, ela vem se disseminando “tanto em países com baixa cobertura de vacinação quanto naqueles com taxas mais elevadas”. Ela ainda alertou que “a disseminação de variantes mais contagiosas, como a própria Delta, faz com que estejamos em um período muito perigoso da pandemia”.

A rápida propagação da cepa fez com que alguns países retomassem as restrições sanitárias. Na Austrália, por exemplo, várias cidades, entre elas Sydney, Melbourne, Perth e Brisbane, decidiram reimpor lockdowns. Portugal, que conta com 90% dos casos de covid-19 causados pela variante, restabeleceu o toque de recolher em 45 dos municípios mais afetados, incluindo a capital Lisboa e a segunda maior cidade do país, o Porto.

Em pronunciamento, o diretor-geral da OMS pediu para que, até o fim de setembro, pelo menos 10% das pessoas de cada um dos países do mundo estejam vacinadas. Ele ainda solicitou que as empresas como Pfizer e Moderna compartilhem os conhecimentos apurados para acelerar o desenvolvimento de novas produções de vacinas, especialmente em países mais pobres.

Hemerson Luz alerta para o piora da pandemia e a relação direta com as máscaras. “A presença das variantes do coronavírus, nos casos da covid-19, é um risco real para recrudescimento dos casos. Por hora, deve-se estudar e manter a utilização da máscara até que se tenha essa conclusão. Os números devem ser seguidos e realmente devem orientar as medidas futuras”, arremata.

Saiba como está a situação em outros países:

  • Nova Zelândia: Tida como exemplo no combate ao coronavírus, a Nova Zelândia foi a primeira a suspender a obrigatoriedade do uso de máscaras de proteção. Em abril deste ano, o país ainda produziu o primeiro evento de grande porte desde o início da pandemia, reunindo 50 mil pessoas no estádio Eden Park, em Auckland, para um show de música;
  • França: Usar a proteção ao ar livre deixou de ser obrigatório no meio de junho devido à queda nos números da doença. Outras medidas restritivas também foram suspensas, como o toque de recolher e a limitação do atendimento nos ambientes internos de bares, restaurantes e cafés. Contudo, o porta-voz do governo francês, Gabriel Attal, alertou, no início da semana, que o país pode enfrentar uma quarta onda de infecções a partir do fim de julho;
  • Israel: No último dia 15, o país suspendeu o uso de máscaras, tanto em ambientes abertos como fechados, graças à acelerada campanha de vacinação — 60% da população está imunizada. No entanto, dez dias após a decisão, o governo israelense retomou a obrigatoriedade do uso da proteção em ambientes fechados devido ao aumento do número de novos casos;
  • Itália: O Ministério da Saúde local dispensou o uso ao ar livre em 28 de junho, mas apenas para regiões classificadas como “faixa branca” , de baixo nível de contaminação segundo o quadro de estágios utilizado pelo país. Os italianos devem, ainda assim, continuar levando máscaras consigo quando saírem de casa para casos de aglomerações ao ar livre;
  • Estados Unidos: Em maio deste ano, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças atualizou a recomendação e disse que pessoas completamente imunizadas não precisavam mais usar máscaras em ambientes externos, e que o uso delas em ambientes internos poderia ser evitado na maior parte dos lugares. Contudo, no início desta semana, o Departamento de Saúde Pública do Condado de Los Angeles, na Califórnia, recomendou que os residentes vacinados da região voltem a usar a proteção quando estiverem em locais fechados. A recomendação, no entanto, não é uma regra obrigatória, e sim uma orientação à população;
  • Reino Unido: O primeiro-ministro Boris Johnson anunciou nesta semana que a partir de 19 de julho o uso de máscaras não será mais obrigatório na Inglaterra. O chefe de governo credita a flexibilização das restrições ao sucesso da campanha de imunização. 

Hemerson Luz afirma que examinar a evolução da pandemia nesses países pode indicar possíveis caminhos para o Brasil: “São países que podemos observar como será o comportamento da pandemia futuramente, sempre levando em conta as diferenças entre eles e nós, mas são exemplos interessantes de medidas que foram tomadas de acordo com os números e poderão nos orientar, também, para decisões futuras”.

Fonte: SCC10


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